
Ninguém gosta de admitir que chupa, ainda que seja atividade corrente e indecorosamente prazerosa para alguns portais. Por isso, há pudores para se considerar. Primeiro, pra quem não sabe, “chupar” é a gíria do meio webjornalístico para o ato de copiar notícias da concorrência que não constam em fontes próprias.
Na verdade, quase tudo no jornalismo de internet é copiado de algum lugar, ou transcrito da TV, ou de uma rádio, com a exceção de apurações próprias, é claro.
GENALOGIA DA (M)ORAL
• É feio falar de boca cheia ou
Não chuparás na íntegra
Uma das regras básicas é reescrever as matérias, invertendo estruturas, mudando a ordem das frases, trocando termos por sinônimos, etc. A idéia é não dar tão na vista. Matéria com título repetido, então, só de agência assinada.
• Limpando a boca ou
Citai a fonte, mas só quando chupares outra mídia
Não é vergonha, por exemplo, dar uma boa chupada em mídias não on-line, ainda que seja de sua versão on-line. Exemplo: denúncias de revistas semanais. É quando lemos aqueles títulos terminados por “diz revista” ou iniciados por “Revista diz que”. O mesmo vale para jornais. Há uma diferença, no entanto, em se tratando de TV e rádio. Esses aí geralmente só ganham um “as informações são da Rádio TAL” ou da “TV ALGO”.
• Fruto proibido ou
Mantenha a língua longe das exclusivas
As exclusivas em sites não são muito comuns, geralmente aquele nomezinho que gloriosamente assina a matéria só copiou, ou chupou, a informação de um órgão público ou coisa parecida. No entanto, diante de uma exclusiva, geralmente apontada assim na capa ou com declarações tipo “disse ao TAL [onde tal é o nome do site]”, todo linguarudo recua. Esse é o mais imoral ato da lasciva prática da chupação. Há que se respeitar o material alheio. Além do mais, ninguém gostaria de escrever “segundo o site”.
OBS: certas afiliadas não se importam em citar o site-mãe. Daí não se diria uma chupada, só uma mamadinha (carinhoso, né?).
• Eles chupam, nós chupamos ou
Roubando a idéia de transcrição alheia
Essa geralmente se aplica a sites de veículos internacionais. É como ter um repórter de primeira no outro lado do mundo, ou ali do lado mesmo, de graça. Exemplo: reportagens copiadas de jornais peruanos por sites brasileiros que renderam uma manchetinha legal na manhã do último domingo. Nesse caso, vale o mesmo exemplo da segunda regra supra-citada, incluindo um “segundo o veículo tal”, mas não muito. Faz de conta que estivemos lá. É chupada internacional.
• Só dá uma assanhadinha ou
Copie apenas alguns trechos
Sabe aquela matéria que todo mundo tem menos você porque a porcaria da sua agência não deu? Então pega a de ontem contextualizando o que aconteceria hoje, copia umas citações de um veículo local e pronto! Aí está o seu quibe chupada sem fronteiras. Exemplo: a agência só disse que Bush ia visitar a área da ponte caída, e o NYTimes já tem as falas dele lá, é só fazer um boca-a-boca no G. W. B. que tá tudo resolvido – citando a fonte, claro!
• Cheirando o bafo pra descobrir o almoço ou
Se foi veiculado na TV, é só pegar o aspas
Outra tática recorrente é aproveitar a citação da concorrência, retirada de eventos transmitidos na TV, para chamar a sua matéria, por mais o resto do texto às vezes não tenha nada a ver. Isso corre bastante em sessões do STF, de CPIs, e outros eventos televisionados. Quem é que vai dizer que o chupador não ouviu aquilo, por mais que a versão inicial sequer tenha citado o mesmo personagem? Essa é a chupada mais descarada e menos atribuível. Dela decorre a padronização de certos títulos.
Bom essas são algumas táticas observáveis nessa grande orgia que é o jornalismo online onde ninguém, ou melhor, nenhum texto, é de ninguém.